BLOG SUPERAÇÃO 1 MARÇO DE 2016

Sobreviver num acidente, vencendo o câncer!!!

Sobreviver num acidente, vencendo o câncer!!!

Força, coragem e determinação! Uma história de lutas, provações, conquistas e vitórias.

“Nasce uma estrela.” Poderia ser assim o começo desta história, mas não é. Ainda assim, considero minha vida um conto de fadas que mistura O Patinho Feio e Cinderela: um cisne maravilhoso e uma princesa perfeita aos olhos do Pai, filha de Deus e coberta pelo sangue de Seu único Filho, Cristo Jesus.

Acredito que eu já dançava no ventre da minha mãe. Talvez tenha sido ali, envolvida pelo líquido amniótico, que a dança passou a fazer parte de mim. Eu já queria viver. Desde então, minha vida foi marcada por muitas lutas. A primeira grande batalha foi justamente essa: lutar pela vida.

Mas Deus tinha um plano para mim e me amava desde o ventre da minha mãe. Como está escrito em Isaías 49:15:

Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti.

E assim eu nasci.

Nossa situação financeira era muito difícil, mas, aos quatro anos, minha mãe me colocou no Ballet Marista, com a professora Jitana. Lembro de fazer a posição de borboleta no chão enquanto ela pedia que fechássemos os olhos e imaginássemos um mundo todo colorido. Eu via o universo inteiro. Foi ali que a arte tomou conta de mim. Rodopiava pela sala, dançava e dançava.

Meus irmãos já iam para a escola, e eu ficava triste porque queria ir junto, mas ainda não tinha idade. Então meu pai começou a me alfabetizar. Naquela época, havia a Vila Sésamo, que ajudava muito. Foi ele quem me ensinou a ler, escrever, desenhar e pintar.

Aos seis anos, fui matriculada no Colégio Auxiliadora. Lembro da Irmã Clair, a diretora, me dizendo:

— Se causar problemas e não acompanhar a turma, não poderá ficar neste colégio.

Tive que provar que era capaz. E provei! Eu amava estudar e continuo amando. Esse é um capítulo especial da minha história, mas hoje quero falar da dança.

Em 1980, quando eu estava na quinta série, minha irmã Leslie fazia parte do corpo de baile da renomada escola Dejan Danças. Ela sempre foi, para mim, uma referência de beleza e talento. A solista era outra Leslie, a também maravilhosa Leslie Barizon.

Minha mãe não podia pagar o balé para nós duas. Como minha irmã era mais velha, ela teve a oportunidade de participar. Mas, naquele ano, fui convidada para integrar a coreografia dos “Grilos” e dancei com o grupo. Até hoje me lembro de cada detalhe e de cada passo daquele dia perfeito. Guardo tudo com muito amor.

Em 1981, o Ballet Teatro Guaíra veio se apresentar na FECIVEL, atual UNIOESTE. Eu tinha apenas 11 anos e fui assistir ao ensaio. Até então, minhas referências de bailarinas eram as Leslies. Mas vi aquela companhia dançar e me apaixonei. Queria ir embora com a Carla Reinecke! Ela nem imagina essa história.

Depois de muita luta, muita luta mesmo, em 1988 Carla se tornou minha professora de Balé de Repertório no Curso Superior de Dança.

 

 

 

 

 

 

 

 



E, pasmem, lá estava eu na Fundação Teatro Guaíra de Curitiba, em convênio com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Depois de ser rejeitada duas vezes, consegui entrar na terceira tentativa.

Fui integrante do Grupo de Dança Moderna e Contemporânea, dirigido inicialmente pelo bailarino Francisco Duarte (in memoriam) e pela bailarina Claudia Gitelmann (in memoriam). Após a morte do Chico, a direção ficou com a bailarina Eva Schul. Tive a honra de dançar, aprender e reaprender a dançar com pessoas que eram referências na dança moderna.

Depois, tive uma passagem pequena, mas significativa, pela companhia de dança de Rafael Pacheco, da Universidade Federal do Paraná. Vieram festivais de renome internacional, turnês maravilhosas e amizades eternas. Vieram também perdas irreparáveis: a Leigh, a Flávia Guimarães, o Chico… Mas nada pode apagar o que ficou.

Machuquei os joelhos e o ombro direito. Em 1992, voltei para Cascavel e montei minha companhia de dança. Comecei no Colégio Marista de Cascavel e depois fui para o Estúdio Contemporâneo de Dança. Quando o estúdio fechou, passei a trabalhar na Academia Adonis Scussiatto, e a companhia passou a levar meu nome.

Quatro anos depois, em 6 de fevereiro de 1996, inaugurei a sede própria da Cia. de Dança e Arte Jenifer Lima, na Rua Minas Gerais. Era a rua das minhas brincadeiras de infância e onde nasci, em casa, devido às circunstâncias daquele momento. Ali, com a sede própria da minha escola de dança e arte, senti que renascia também.

Contando assim, até parece que tudo foi fácil. Mas não foi.

Em 17 de abril de 1997, sofri um acidente de carro na BR-277, a caminho de um evento de dança em Curitiba. Para resumir, o braço direito foi a única parte que não quebrei. Fiquei numa cadeira de rodas, perdi movimentos e levei dois anos para reaprender a andar. Dançar, então, parecia ainda mais distante.

Naquele mesmo ano, veio outra perda: meu pai foi morar com Deus. 1997 foi marcado por muita tristeza e muita dor. Mas eu precisava continuar. Minha “companheirinha” Lu tinha apenas três anos, e o amor pela minha filha Luciana Lima Leffer me ajudava a vencer cada dia.

Em 2002, veio a Juju. Foi uma gravidez de risco, e ela nasceu com a saúde debilitada e a imunidade baixa. Levamos dois anos para descobrir sua intolerância à lactose. Mas aquele ano também marcou um renascimento para mim: conheci Jesus. Creio que Ele salvou a vida da minha filha ainda no meu ventre. Fui batizada nas águas e com o Espírito Santo. Jesus Cristo mudou meu viver.

Fechei provisoriamente a companhia de dança, mas a arte continuou sendo meu alicerce. Trabalhei no Programa Fazendo Arte, ministrei aulas de arte nas redes particular e pública e criei coreografias para muitas igrejas evangélicas. Foram 14 anos reaprendendo a viver com as limitações deixadas pelo acidente.

Em 2011, exames de rotina encontraram um nódulo na minha mama esquerda. A biópsia mostrou que era benigno. Eu, porém, já me sentia doente, sem que conseguissem descobrir a causa. Tinha um cansaço terrível, desmaios e dores nas juntas. Como também sentia dores intensas pelas sequelas do acidente, era difícil perceber o que mais acontecia no meu corpo.

Foram quase dois anos difíceis. Em 15 de outubro de 2012, Dia do Professor, recebi o diagnóstico de câncer de mama após uma mamografia e uma biópsia. No dia 6 de novembro, fui internada na UOPECCAN para a cirurgia de retirada dos nódulos malignos. Como estavam nos quatro quadrantes da mama direita, passei por uma mastectomia radical e pelo esvaziamento axilar. Também foram retirados nódulos da mama esquerda, que continuavam benignos.

Depois da cirurgia, desenvolvi linfedema no braço direito. Vieram o inchaço, a limitação dos movimentos e dores insuportáveis, que tornavam meus dias difíceis e minhas noites intermináveis. Passei a conviver também com a monoparesia decorrente da mastectomia e do esvaziamento axilar. Como disse o Dr. Emerson:

— Jenifer, o seu braço ruim agora é o braço bom.

O único membro do meu corpo que não havia sido comprometido no acidente agora estava comprometido pelo tratamento do câncer. E aquela era apenas a primeira parte de uma batalha ainda maior.

Eu tinha fé, mas ainda não conseguia compreender por que o câncer estava no meu corpo. Algumas pessoas dizem que a tristeza causa câncer. Eu e muitos amigos que convivemos com a doença sabemos como é doloroso ouvir isso. A tristeza também vem porque estamos enfrentando o câncer. Parece a mesma coisa, mas não é.

Depois da mastectomia, precisei enfrentar a quimioterapia. Fiquei inchada, perdi os cabelos e sentia dores insuportáveis. Vomitava pelos efeitos da medicação e, muitas vezes, também de dor. Quando eu não aguentava mais, recebia morfina. Algumas horas depois, voltava a mim e encontrava tudo novamente à minha espera.

Os ciclos se repetiam a cada 21 dias. Quando eu finalmente conseguia ficar em pé e os efeitos começavam a diminuir, chegava a próxima sessão: mais quatro ou cinco horas de medicação. Só quem passou por uma quimioterapia sabe o que isso pode significar. Eu sentia que morria e ressuscitava a cada ciclo.

Minhas veias já não suportavam a agressividade da medicação. Meu corpo parecia não aguentar mais. Mas eu precisava viver. Depois de muitas conversas e cuidados, decidi interromper a quimioterapia e buscar tratamentos alternativos. Não foi uma decisão simples. A equipe médica se reuniu comigo, ouviu minhas razões e respeitou minha escolha. Foi quando a Dra. Inês me perguntou:

— Jenifer, você quer morrer?

— Não, doutora. Eu quero viver! Eu preciso viver! Quem vai cuidar da minha filha Juliana? Ela só tem oito anos!

Eu já não suportava me ver mutilada, careca e inchada. Ainda assim, essas mudanças pareciam pequenas perto do sofrimento que eu sentia a cada ciclo.

Um dia, tomada pela dor e pelo desespero, sentei-me chorando em um banco perto do consultório da Dra. Inês, que tanto me ajudou durante o tratamento. Eu tinha feridas na boca e na cabeça. Minha filha Juliana e minha sobrinha Samara estavam comigo no hospital.

Foi quando um desses anjos do bem, chamados Gabriela, sentou-se ao meu lado e começou a me fazer perguntas:

— Você está chorando porque está careca? Essas meninas ali na frente são suas filhas? Sabe onde eu tive câncer? Tenho dez anos e conheci o câncer aos sete. Ele começou na minha vagina, e precisei retirar o meu útero. E você está aí, com as suas filhas…

Parei de chorar imediatamente. Aquela criança forte me fez enxergar, em poucos minutos, o que eu não estava conseguindo ver: minhas filhas estavam ali, diante de mim. Em meio à dor, eu ainda tinha muitas bênçãos.

Meus olhos se abriram, mas minha boca ainda não acompanhava o que eu estava aprendendo. Perguntei:

— Você brinca de Barbie?

Eu não poderia ter sido mais inconveniente! Ela acabara de me dar uma lição de vida, e aquela foi a pergunta que consegui fazer. Com toda a paciência, respondeu:

— Não. Eu não poderei ter filhos. Para que brincar de Barbie? A gente brinca de boneca para ensaiar ser mãe. Eu nunca vou ser mãe como você.

Antes que eu dissesse outra besteira, a Juju e a Sa, que já acompanhavam a conversa, se aproximaram. A Juju disse:

— Eu te empresto minha barriga. Ou então você adota alguém. Tem tantos jeitos de ser mãe!

Foi ali que comecei a encontrar mais força. Eu precisava continuar.

Ainda não contei que a Juju sentia comigo tudo o que eu estava passando. Eu vomitava, ela vomitava. Eu não comia, ela não comia. Enquanto eu sofria, ela sofria ao meu lado. Um dia, o Dr. Carlos segurou seus bracinhos magros e disse:

— Se você morrer, quem vai cuidar da sua mãe? Você precisa se alimentar. Precisa ser forte.

Quando alguém enfrenta o câncer, as pessoas que a amam também sofrem. Choram, sentem-se impotentes, questionam Deus e pedem a Ele pela cura. Alguns amigos e familiares se aproximam; outros se afastam. Máscaras caem. Surgem amizades novas e verdadeiras, e pessoas que estavam distantes voltam. O amor fica.

Nunca imaginei que um dia diria isto, mas o câncer também transformou minha maneira de viver. Passei a dar mais valor ao hoje, a deixar para trás problemas de ontem e a querer estar perto de quem amo e de quem me ama. Escolhi passar meu tempo com amigos e familiares que me fazem sorrir.

Mesmo debilitada, passei o Natal com meus irmãos Dawson e Leslie e meus sobrinhos, em Campo Grande. Passei a virada do ano com minha amiga Veralu Pedreschi e fui visitar minha irmã Cristiane Lima na praia. Hoje sou mais feliz. Sobre amanhã, eu não sei. Hoje venci mais um dia.

Fiquem com Deus. Desejo, de coração, que tenham muita saúde. Abracem, beijem, amem e dancem muito!

Espero que no próximo ano possamos nos reencontrar. Quero ter a oportunidade de contar outras histórias e, quem sabe, ouvir algumas das suas. Talvez possamos dançar juntos. Talvez eu ensine alguns passos e, nesse ensinar e aprender, a gente invente uma coreografia e monte um grande espetáculo.

E, se por acaso não nos encontrarmos novamente, quero que saibam: fui e sou muito feliz e muito grata pela oportunidade de viver.

Quando Jesus voltar em glória, que possamos cantar, dançar e nos prostrar diante do verdadeiro Mestre. E que possamos seguir com Ele, juntos, até a eternidade.

Jenifer Lima